Imagem Distorcida

Nunca consegui contemplar o meu corpo

Aos domingos sempre fico mais introspectivo e reflexivo e há algumas semanas estou repensando sobre a  minha pele, meu corpo, o meu lugar no mundo, nunca me senti confortável nessa vida, sempre me achei estranho, mesmo que tenha tido várias formas e aparências, jamais me agradei com o meu reflexo.

Por anos acreditei que o problema era a minha obesidade, todavia olho para fotos do tempo da faculdade e eu era apenas mais um jovem com sobrepeso e já ali mostrava problemas com a minha percepção de imagem.

Desprezava tudo que tinha em mim, estava obcecado com receitas de emagrecimento e buscando uma beleza surreal porque queria me sentir aceito, fazer parte de algo, e ser visto como uma ser humano interessante. Como resultado de uma estética mais agradável tive episódios de bulimia, tive h pylori e ainda a vergonha dos outros e mais ainda do que constatava no espelho.

Com tempo a rotina de ódio só intensificava e buscava preencher um vazio que não entendia o motivo de existir com sexo, bebidas, trabalho e dependência emocional a qualquer pessoa que mostrasse afeto comigo.

O que se tornou derradeiro e quase fatal quando me descobrir soropositivo, passaram se os anos curaram as feridas da minha sorologia e gordofobia e ainda sinto essa antipatia pelo meu corpo e ainda busco entender o motivo.

Distanciamento do meu corpo

Willow Pill, me abraça.

Assisto RuPaul’s Drag Race desde 2015, o que gradualmente me inseriu em contextos que jamais tive acesso dentro da minha bolha e há algumas temporadas a pauta sobre gênero fluido e transexualidade se fortaleceu no programa me despertando para questionamentos que estavam internalizados dentro de mim.

Um novo processo se iniciou em minha cabeça: será que sou uma pessoa trans? Pois, quando penso em  minha atuação sexual a ideia de ser uma mulher trans se consolidava.

Todavia, pesquisando, lendo e buscando me reconectar comigo mesmo vi que talvez esse não fosse a solução de anos sem entender meu corpo, na verdade, a questão seja mais ampla, profunda e dolorosa.

Atualmente, está sendo exibida a décima quarta temporada, e desde do primeiro episódio fiquei apaixonado pela competidora Willow Pill, pela sua forma de pensar, se expressar e ter questões de autoaceitação, claro que o caso da competidora é completamente diferente do meu, pois ela é portadora de uma doença crônica, a Cistinose.

Uma doença genética que se caracteriza pelo acúmulo no organismo de um aminoácido chamado cistina. Como a cistina não se dissolve com a água, ela forma cristais que comprometem o funcionamento de diversos órgãos, em especial os rins e os olhos, o que fez da vida da Willow um verdadeiro martírio e porta para uma vivência dolorosa e obscura.

Em um determinado momento do reality ela comenta que sentiu sempre  um “distanciamento do seu corpo”, e essa frase especificamente me marcou, porque talvez seja a melhor forma de sintetizar o que sinto.

Como se estivesse em uma eterna projeção astral, como se aguardasse a minha alma desvincular desse receptáculo e encontrasse a minha verdadeira forma, é muito triste perceber que viveu uma vida inteira sem saber quem tu és e sem esperança de se encontrar.

Espero que estiver passando por algo similar encontre a paz de uma resposta satisfatória.

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