A Arte de Cancelar

Cancelar e ser cancelado é uma atividade humana bem antiga.

Desde 2017, o termo “cancelamento” vem ganhando destaque sido ocasionado pela conduta “condenável” de uma pessoa sendo exposto nas redes sociais ou na televisão. Essa prática tem como intuito boicotar, principalmente, pessoas conhecidas e/ou famosas.

Tal punição possui muitos adeptos, todavia vai de contramão a liberdade de expressão, um dos  principais fundamentos da Declaração Universal de Direitos Humanos.

Negando o direito de uma pessoa de se desenvolver e melhorar como indivíduo sendo silenciado para sempre por um erro, além de evidenciar problemas estruturais de desigualdade, como racismo, o que aconteceu com a Karol Conká e a Lumena no BBB 21 por serem mulheres pretas.

Sim, elas erraram por seus comentários e atitudes no programa, tiveram comportamento bem questionável e podemos acreditar ser uma percepção geral por todos que acompanharam ao menos o programa, todavia, quanto tempo demorará para elas sejam perdoadas? Talvez nunca, né? 

Em contrapartida, temos o caso do DJ Ivis que agrediu fisicamente sua ex companheira na frente da filha do casal e de um amigo, foi preso e depois de apenas três meses foi solto porque simplesmente a justiça quis.

Para agravar a situação de mais um homem branco cis hétero sendo perdoado apenas por ter as características mencionadas anteriormente, seus amigos famosos ainda lhe chamavam para participar em seus shows só reforçando que o perdão é dado para pessoas pertencentes a grupo majoritários e/ou que estão no poder.

O que mais questionar como funciona esse apagamento social? Quais critérios? Só os privilegiados são contemplados?!

É necessário salientar que parte das pessoas canceladas por um comentário ignorante por fazer parte de uma bolha e não teve oportunidade de se inserir em um campo do diálogo transformando a sociedade em juízes de plantão, se auto intitulando os donos da verdade.

E não, não estou passando pano para comentários de carácter machista, homófobico, transfóbico, xenofóbicos, racistas ou de qualquer outro punho de violência a um grupo social.

Pelo contrário, precisamos estar abertos ao diálogo, não é sobre educar ou doutrinar alguém, porém criar espaços para conversa e talvez assim melhorar o mundo tenebroso que estamos vivendo.

Afinal, quem diz que uma pessoa tem a capacidade de cancelar alguém? Não estaríamos retroagindo e perdendo a capacidade de coexistir e ouvir críticas e discordar?

Sou cancelado até hoje

Third time is the charm?

Eu tenho uma certa experiência em web realities, desde 2016 quando entrei no telegram fui convidado para jogar uma versão online inspirado no Survivor, um dos programas mais famosos e queridos dos Estados Unidos e desde então venho colecionando reality na minha vida, sendo do primeiro eliminado até finalista perdendo por um voto.

A questão é que praticamente em todos programas que participei ou apontei o dedo cancelando alguém utilizando isso para eliminar a pessoa ou fui eliminado por ser cancelado. Os motivos foram dos mais variados, admito e reconheço que parte deles estava errado por enxergar a competição como algo maior do que deveria e não me divertir, o que seria o principal objetivo do jogo.

Dessa forma, criei uma péssima fama no telegram, a maioria das pessoas me julgava puramente por um recorte e não se permitiam mais me conhecer e até hoje sou taxado como uma pessoa caótica que por onde passa vai movimentar ou estressar todos os presentes. O que me traz um questionamento: se de forma virtual sofro consequências dos meus atos sem a permissão de tentar mudar e mostrar o mesmo por um pequeno grupo de pessoas, imagina alguém sendo exposto para milhões de pessoas e julgado por uma legião de juízes, quais os danos que essa pessoa vai levar para o resto da vida?

Acredito que o grande problema da máquina do cancelamento é nos transformar em  uma Geração de canceladores cancelados, algo que a Karol Conká aborda muito bem em sua entrevista para a Blogueirinha

De tal forma que dificilmente uma pessoa consegue reverter sua situação de cancelado, com exceção de pessoas brancas e cis, pois pessoas pretas, queers, ou até mulheres são setenciados por esse crime perpetuamente.

Caso queiram ver minha última e derradeira participação em reality tá aqui o link.

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